contra sinal de GATO VADIO
Arte, metadona da pós-burguesia
Se a religião foi o ópio do povo, a arte é a metadona da pós-burguesia. É pós, porque a burguesia já não existe – “Burgueses somos todos”, dizia e bem o poeta e pintor Cesariny – subsiste a encenação dela na degradação dos conceitos a ela associados. Pós-burguês, porque a burguesia, por mais criticáveis que fossem, construiu um conjunto de valores. Hoje, o pós-burguês tornou-se num ready-made dos tempos actuais.
E nos famosos tempos actuais, as pessoas aderem – as pessoas não participam, aderem, e o que adere é o adereço; conquista da cultura do efémero, do facilitismo e do liberalismo individualista. À sua conta e medida, cada um usa em sistema self-service a dimensão da sua fita-adesiva – nada é público, nada afecta o social e o outro, assim adere-se a tudo o que não exige troca (nem troco…) a tudo o que ao fim ao cabo não põe em causa nem a nossa redundância nem a ordem dominante das coisas. Adere-se sempre que nada se passa. E o espectáculo é o melhor sonho da sociedade moderna bombardeada – de objectos e de informação, de discursos e de “literatura”, de santos ou de hereges, de produtos com ou sem whisky –, sonho “que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sono”. (Debord).
A cultura sempre foi a face mais folclórica e simbólica de uma sociedade. Aí se conserva como em vinha-d’alhos. Em Portugal, a chamada cultura popular possuiu sempre a fascinante capacidade para não-evoluir, apetência para uma contínua reiteração dos seus rituais e da autenticidade do seu sentido. Nunca se desfez do seu património, e nunca soube mercantilizá-lo. Ao fim ao cabo, a cultura popular nunca quis ou nunca soube ser folclórica.
A baixa-cultura – seja ela rotulada de grotesca, boçal, piolhosa, bondosa, generosa, acolhedora, genuína, artesanal, arcaica – foi sempre jurada, nela havia crença e, por isso, a decadência estava excluída do seu processo de sobrevivência face à cultura dominante: tecnologicamente agressiva e destrutiva, fundamentada na produção em auto-poiesis, no lucro, na voracidade e na dejecção permanente da mercadoria. Na cultura popular, o ser não desaparece no processo de sobrevivência, ritualiza-se no seu corpo e morre de pé.
Sabemos que a materialização dos desejos e do imaginário da Miguel Bombarda depende cada vez mais da Famous Grouse, da destilação de uma realidade técnica e funcional: do dinheiro e do seu poder simbólico. Estimula-se e exige-se gratuitamente a aparição do espectador da alta-cultura, e o espectador é aquele que cumpre o seu papel não tendo resposta para além da realidade dada e da sua própria qualidade de espectador, é aquele que se condena a sentir-se realizado além da alienação. A falácia não está em fazer parte da encenação – havia aí jogo e estratégia crítica – mas em simplesmente a ela aderir sem nela acreditar. São montras, e montras sem espelho, sem metafísica, sem chocolates…
Nem sequer é preciso pagar para nos sentirmos melhor. É tudo à borla e o próprio whisky é um puro ou gélido acaso da nossa alegria momentânea.
Um pouco ébrios e cambaleantes, talvez seja mais fácil assim para esquecer que fazemos parte da encenação, esquecer que para haver espectáculo é preciso haver espectador, e ao sabor da corrente e com a imaginação já longe, talvez um pouco embotada por mais um pouco de malte, talvez não nos ocorra que se o espectador não compra o seu espectáculo, é porque foi comprado, porque a mercadoria do espectáculo tem essa condição fascinada de duplicar-se no espectador. Depois, rua acima, rua abaixo, reproduzir o discurso do lugar-comum, o discurso de legitimação, se quisermos, o discurso do político: alternativa; cena cultural; novas dinâmicas, novos conceitos; indústrias culturais e criativas; Bombarte; Famous Miguel Bombarda…
Não é tanto a posição de acreditar na lógica capitalista à escala tripeira, mas investir numa encenação e num discurso que encobre na essência essa fé em nome da Arte que nos encosta ao estômago.
É juntar no mesmo palco o galerista, o artista, o espectador, o destilador, e todos declararem que estão a lutar contra a mercadoria porque estão todos com a Arte e envolvidos num processo de “criação” artística.
Para que fique claro, os galeristas cumprem o seu papel, exploratório, especulativo, comercial, ou seja, promovem a cultura.
A eles nada há a apontar. Os bastidores do espectáculo pertencem-lhes. A vós, artistas e espectadores, cabe aplaudir.
Os Vadios. 17 de Abril de 2009. Porto.
venres 17 abril 2009
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